A quinta-feira 2/6 escancarou um grande problema: o ambiente na Seleção Brasileira não é bom. Há uma rusga, que pode se tornar um cisma entre os profissionais do campo (jogadores e comissão técnica) e a presidência. A sensação já estava estranha nos últimos dois dias em Teresópolis. Na última terça e na quarta-feira não houve entrevista coletiva de Tite e de nenhum jogador. Cubro ou acompanho a Seleção desde 1999. Não me lembro de nada igual. Não havia motivo esportivo para o silêncio. Afinal, o Brasil está bem na fita nas Eliminatórias e voltava à Granja depois de meio ano sem jogos. Mas tinha o papo de que era para evitar perguntas sobre a Copa América – que estava mudando de sede dez dias antes de seu início -, pois Tite não queria que os jogadores falassem sobre isso.

Jogadores e comissão não estão no mesmo tom com a diretoria da CBF  – Reprodução/CBF TV

A verdade acabou escancarada nesta quinta-feira, em Porto Alegre. A aparente descontração nos 20 minutos filmados do treino de reconhecimento do gramado do Beira-Rio, palco do jogo contra o Equador, nesta sexta-feira, pela quinta rodada das Eliminatórias, era fachada. O grupo está descontente com o comportamento do presidente Rogério Caboclo. O elenco não engoliu a mudança de sede para o Brasil e o fato de não ter sido consultado. Provavelmente os jogadores não iriam apitar em nada neste caso. Porém, seria de bom tom o presidente chegar e falar abertamente sobre o que estava para acontecer. Política é isso. O mandatário poderia conversar com o grupo no domingo ou na segunda-feira. Ele estava lá. Não julgou necessário.

Veio a mudança e eles souberam por meio da imprensa ou pelo Twitter da entidade. Se sentiram usados. Ou apenas personagens secundários do show, tendo de fazer malabarismo com a bola e alegrar a plateia. Só que tem uma coisa: eles não precisam disso. Curtem defender a Seleção, querem ser campeões, mas parece que não é a qualquer custo. Alisson, Neymar, Jesus, Casemiro, Marquinhos… estão ali pela competitividade. Se fosse pelo dinheiro, poderiam engolir. Não é o caso. Vamos pensar uma coisa: o campeão da Copa América ganhará 10 milhões de dólares (R$ 54 milhões). Imaginemos (duvido muito) que a CBF pegue 20% desse total e dê como prêmio para os jogadores e a turma da comissão técnica. Trinta caras, dá R$ 400 mil para cada um. Uma baita grana para o brasileiro comum. Mas garanto que 90% dos convocados ganham mais do que isso por mês. Neymar, aliás, recebe (só de salário do PSG) R$ 530 mil por dia. Precisa de dinheiro? Não.

O papo é que eles não querem disputar a Copa América, pois a competição é de pequena relevância e com participação das mesmas seleções que vêm jogando nas Eliminatórias (a campanha brasileira tem 100% de vitórias até aqui). Caso joguem a competição, eles perdem as férias. É um bom discurso. Mais plausível do que um manifesto contra uma competição esportiva no Brasil da Covid-19 e da Cepa “Gama” (como estão chamando a variante brasileira do coronavírus) ou um lamento pelas 500 mil mortes. Não faria sentido, pois eles estão jogando, muitos participam de festas, organizam festas. Seria hipocrisia.

Mas esta versão que está sendo colocada nas últimas horas pode vir a calhar para o verdadeiro objetivo: a pressão em cima do presidente Caboclo, que não conta com simpatia generalizada e não se mostra um bom político no cargo (vide também o vídeo vazado em que ele detona presidentes de clubes). Se os astros não jogarem a Copa América, isso certamente enfraquecerá o mandatário, que armou o palco para ganhar força política na Conmebol e com o Governo Federal e pode dar com os burros n’água.

Tite também torce o nariz para Caboclo. É só ver nas entrelinhas. Na coletiva desta quinta-feira, quando perguntado sobre a tentativa da CBF em ter Xavi e Murici no staff, ele foi lacônico. Sim, é verdade. E não se estendeu. Quem conhece Tite sabe que ele não é monossilábico. Outra: na coletiva, por qual motivo Juninho Paylista, que é o coordenador, não estava presente? A sensação é de que ele está sendo fritado. Por qual motivo? Técnico não parece ser.

Para resumir, já que o papo está longo. Tite disse que, na quarta-feira, ele e os jogadores devem falar sobre esse caso, pois, por enquanto, estão focados apenas nas Eliminatórias. Não creio que até lá o time decida “Não vamos jogar”. Até lá, Caboclo pode ter conseguido apagar o incêndio e, quem sabe, os jogadores topem jogar a Copa América e “perder as férias”. Mas está claro: o ambiente que envolve jogadores, comissão e presidência está deteriorado

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