Nunca se falou tanto, na imprensa esportiva brasileira, sobre a excelência de performance emanada sobretudo pelas equipes de alto rendimento. Neste cenário, Flamengo, Palmeiras e Atlético-MG não atestam aplausos somente pelos triunfos. Afinal não basta vencer; é preciso convencer. Tal modo de lidar com o esporte combate a acomodação e traz benefícios. A aceitável ambição leva a um magnético capricho pelo produto. Mas o rigor desproporcional nas análises não pode passar despercebido.

Flamengo chega mais uma vez como favorito para o título brasileiro – Marcelo Cortes / Flamengo

Acompanhei com interesse e atenção redobrada os jogos finais de três dos quatro principais estaduais do Brasil: Carioca, Paulista e Mineiro. Quanto ao Gaúcho, só pude ver as reprises por serem em horários conflitantes no tocante aos demais. Com base no que foi apresentado, cheguei à conclusão que se calcularmos uma média do nível técnico destas oito partidas, o resultado não será animador. Justamente os Gre-Nais – os quais não assisti ao vivo – foram os duelos que proporcionaram maior emoção.

Sobrecarregados de tensão, os clássicos nos quatro principais polos futebolísticos do País esbanjaram dinamismo e oportunidades de gols. Sim, é verdade. Mas, ainda assim, se nos ligarmos ao viés de requinte dos espetáculos, se reduzirmos o sarrafo no parecer do que faz jus à etiqueta do bom futebol, o recado passado pelos estaduais corroboram a narrativa de que a qualidade anda escassa na Terra Papagalli.

Flamengo e Atlético confirmaram seus favoritismos, mas não o provaram com a exuberância que têm condições de executar. O Palmeiras, por sua vez, se deparou com duelos equilibrados e sucumbiu diante de um São Paulo que ganha corpo para o Brasileirão.

Mas falando no time do Morumbi, seus torcedores exageraram ou não ao celebrar efusivamente o fim da seca de quase nove anos sem títulos por meio de uma competição menor como o Paulista? Ou “Paulistinha”, como o campeonato fora chamado por alguns nos últimos anos. A resposta é que isso não importa.

Atlético promete fazer frente ao Rubro-Negro e voltar a faturar um Brasileiro depois de 50 anos – Pedro Souza/Atlético-MG

Involuímos à condição de “fiscais de emoção” ao abrirmos mão do alcance subjetivo, do recorte poético preconizado por Nelson Rodrigues. Afinal, e daí se os apaixonados torcedores vibram com um torneio regional equiparando-o a uma Copa do Mundo? Se o futebol alcançou o status de religião no Brasil, deve-se à paixão clubística, à voz entoada da arquibancada. Mesmo em se tratando de uma glória secundária. Mas secundária para quem? Em tempos pandêmicos, a volúpia foi contemplada com explosões de alegria testemunhadas entre vizinhos nas decisões estaduais. Sim. Nosso sistema de valoração é abstrato e precisa ser revisto.

O que é belo salta aos olhos. É necessário a retomada da leveza do simplesmente fluir com as conquistas. Resvalamos no provincianismo no instante em que ingressamos em um círculo de frustrações apenas por uma derrota para o vizinho. Cabe, portanto, reflexão se a hierarquização a qual alimentamos diariamente não peca pela pretensão reguladora, generalista de nossos discursos e avaliações.

A beleza da rivalidade não se esvai; seguirá presente, agora no Brasileirão, que bate às portas. Uma outra realidade? Certamente, com viagens maiores e calendário apertado em meio a outras competições de peso. Técnica? Não, se comparadas as finais estaduais. Afinal, não existe dificuldade maior do que um clássico regional em que as forças são equiparadas independentemente da qualidade dos elencos.

Prós e contras irão mapear uma realidade que se estenderá nas 38 rodadas do certame nacional. Em todos e para todos!

 

 

 

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