Sim, o Flamengo venceu por 4 a 1, e garantiu a vaga, mas parece que ainda não entendeu – o narrador que o diga – o que é encarar essa competição maldita e misteriosa. Brincou à beça, viveu momento desnecessário de incerteza, e só ganhou porque – isso é simples – é melhor. O Flamengo só ganha Libertadores se contar com um time espetacular, vivendo momento fantástico, como ocorreu em 1981 e em 2019. O atual, que há algum tempo vem aos trancos e barrancos, está longe disso, como dito, por aqui, quando o ano começou. Conquistar a atual seria uma grande surpresa, embora a taça, como dito, é exceção.

O mais surpreendente, na primeira meia hora, foi notar que havia alguma facilidade, diante de um adversário da Argentina, o que não é, digamos, normal. O Defensa de Sebastian Becacecce, o Ozzy Osbourne argentino, até que tentou ir à frente, quando a bola rolou, buscando o gol, ao invés de entrar recuado, para apostar em contra-ataques. Mas não conseguiu fazê-lo, e o que é pior, tomou 1 a 0 logo aos oito minutos, com cabeçada de Rodrigo Caio, após escanteio cobrado por Éverton Ribeiro. A desvantagem desmontou-lhe a estratégia, e o time argentino ficou em dúvida, se jogava para evitar o segundo, ou para empatar.

Assim, deixava grandes espaços atrás, quando saía, e era obrigado a apelar, para impedir a força do adversário. E levou dois cartões amarelos com rapidez. Se tentava atacar, esbarrava em alguma afobação, e errava com freqüência. Mas o Defensa tinha um aliado: o Flamengo esnobava em excesso, e como faz habitualmente, desperdiçava chances, sem perceber que enfrentava um time argentino. Gabriel simulou pênalti, provocava, reclamava do árbitro a cada cinco minutos, e acabou sendo advertido sem necessidade, sim Aos 22, Sebastian Becacecce trocou Contreras, completamente deslocado, por Tripichio, para equilibrar o meio e reforçar o poder ofensivo. Aos 41, toquinho para cá, outro para lá, ninguém pode conosco, veio bola atrasada e Diego Alves rebateu em cima de Loaiza: 1 a 1.

Assim, lá vamos nós mais uma vez com o comentário que está pronto. É só fazer ctrl C + ctrl V: não se trata de ser viúva de Jorge Jesus, que largou o Flamengo na calada da madrugada para passar vergonha no Benfica, mas a equipe que comandava, em 2019, ali, por volta de meia hora, já teria liquidado o adversário, tal a facilidade. Aliás, como resta o segundo tempo, seria interessante dizer desde já que o Defensa, como toda equipe argentina, vai fazer o diabo para obter a vaga. Já foi assim antes contra brasileiros. Pois o time amarelo voltou colocando em prática o que faz de melhor, ou seja, a obediência tática que irrita qualquer adversário.

Como se isso não bastasse, passou a amarrar o jogo com uma queda aqui, outra ali, paralisações contínuas, pois, na realidade, não tem muito o que perder: vai levando o jogo assim, enquanto pode obter o resultado. Se ganhar a vaga, fará festa particular, mas se não consegui-lo, a cobrança será tímida – você conhece Florencio Varela? Dos 150 mil habitantes, por aí, menos de 10% são hinchas de Defensa.

Pois aos 21, quando a coisa começava a caminhar para o trágico, ele, Michael, que acabara de entrar, deu um chutão no travessão, e Arrascaeta apanhou o rebote: 2 a 1. Na realidade, além de várias substituições de ambos os lados, o que mudou de fato é que o Flamengo seguiria na taça mesmo se levasse outro gol. Até que aos 38, e como a Libertadores é maldita e misteriosa, Vitinho bateu de fora da área, e Unsaín retribuiu a falha de Diego Alves, e engoliu o franguinho que liquidou o duelo. Nos acréscimos, reforçando o que se diz, ele, Vitinho, fez 4 a 1.

E o Michael, hein? Chuta de qualquer distância, e o mais interessante, acerta. Ele foi o melhor em campo, pois entrou na chamada Hora H, e fez o que espera de seu momento. Agora é Inter ou Olimpia. A propósito: Florencio Varela dormirá tranquilamente. Creia: raros estão incomodados com o resultado por lá.

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