Gentil Cardoso, treinador competente, e sobretudo personagem folclórico do futebol, dirigia a Portuguesa em 1964, quando criou a figura da “zebra”, antes de um jogo contra o Vasco. O seu time venceu por 2 a 1. Dessa vez, no entanto, o animal, que não tem no Jogo do Bicho, preferiu tirar folga no domingão, e o clube da Ilha perdeu por 3 a 1 para o Fluminense, confirmando a previsão geral.

Kayky corre para celebrar o seu gol – LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C.

O Tricolor ainda fez o favor de assustar a sua torcida, ao lançar a maldição do time “alternativo”, e permitir que o adversário sustentasse o empate até o intervalo. Mas Kayke, rápido e objetivo, entrou no lugar de Cazares, que é de uma preguiça irritante, para decidir, em dois lances, a possibilidade dela, a “zebra”, abandonar o seu descanso e dar as caras no Maracanã. A propósito, como dito neste espaço, os pequenos são como remédios e alimentos perecíveis, por melhores que sejam, pois têm prazo de validade. Restou à Portuguesa o fato de ter realizado o mais efetivo Estadual de sua história, e só perdeu uma das seis partidas que disputou contra os grandes.

Fluminense e Portuguesa fizeram um primeiro tempo equilibrado. O Tricolor não forçou o jogo, quem sabe acreditando que poderia vencer muitos problemas, como sugeria a própria escalação de Roger Machado. E a Lusa esbarrou em suas limitações técnicas. O time das Laranjeiras, até então, mais ligado, fez 1 a 0 aos 21 minutos, em chute colocado de Yago Felipe, e acabou tomando o gol de empate aos 42, em pênalti de Marcos Felipe em Jhulliam, convertido por Chay. De qualquer forma, surpreendente, pois em outros tempos o Fluminense teria sido efetivamente decisivo, dentro e fora do campo, liquidando até o intervalo.

A Portuguesa retornou para a etapa derradeira excessivamente recuada, com dificuldades para ir à frente, o que aproximava o adversário de sua área. Quando você adota postura defensiva precisa criar uma forma de acertar os contra-ataques. Seria necessário acreditar em Papai Noel para esperar que Rafael Pernão, que entrou na vaga de Cafu, pudesse ser o responsável por tal ação.

Logo, aos 10 minutos, Kayky avançou pela direita e rolou para Gabriel Teixeira fazer 2 a 1. O óbvio diante do improvável. Aos 21, o próprio Kayky, em jogada pessoal, fechou o caixão dos insulares, que já estava aberto, aguardando alguém empurrar a tampa.

Existem duas diferenças entre os times principais do Flamengo e o do Fluminense. O Rubro-Negro, na teoria, pelos jogadores que possui, e pelos títulos que ganha desde 2019, é melhor. E ao contrário do Tricolor, consegue manter a tranqüilidade diante do adverso, como vem ocorrendo na Libertadores. O Flamengo teve problemas com todos os adversários, incluindo o frágil La Calera, e apesar de tudo, saiu sempre vencedor. O Fluminense tomou um gol de pênalti inventado pelo árbitro, logo aos oito minutos, e se não ficasse perturbado com o erro, excessivamente “pilhado”, como se diz, poderia ter derrotado o Júnior de Barranquilla, que a equipe carioca deverá golear no Maracanã.

Ocorre que não há favorito em Fla-Flu. Não é lugar-comum. É histórico. Em 2021, por exemplo, o clássico aconteceu em duas ocasiões. E o Fluminense faturou ambos. Quem ganhar o jogo na véspera vai perdê-lo em campo. O que se tem a dizer é que o Flamengo deve privilegiar a capacidade de atacar que tem levado o clube a vários títulos, e que o Tricolor pode aproveitar as falhas comuns da retaguarda do adversário, que já tomou 31 gols em 29 partidas disputadas desde o começo de 2021, ou seja, média de pelo menos uma bola na rede em cada jogo. Assim, conquistará o campeonato o time que for mais efetivo sob o aspecto ofensivo, com base nas qualidades e defeitos do Flamengo.

Outra questão que poderá ser decisiva é a questão irritante do, digamos, recurso, que os treinadores têm abusado, por conta da obsessão chamada Libertadores, uma doença que contagia a todos: lançar reservas em profusão. Quem o fizer, entrará pelo cano.

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